A Política Contra o Mito

[Esse artigo surgiu como projeto de uma resenha do livro O Mito do Estado da autoria de Ernst Cassirer. Todavia, como o artigo se estendeu demais, e julguei inconveniente obliterar toda a discussão histórica levantada, visto que isso seria ignorar o sistema argumentativo do autor, resolvi dividir em três posts assim como o livro está dividido em três partes. No primeiro veremos o desenvolvimento do estudo do mito e definição proposta pelo autor. No segundo, a relação do mito e política ao longo da história da filosofia. E por último, o fenômeno contemporâneo do mito político moderno e a conclusão. Por tanto, a leitura dos posts são complementares para o entendimento da obra. Também devo esclarecer que me ative em larga escala aos pensadores e as discussões abordadas por Cassirer, exceto por aqueles que coloquei nas notas.] Continuar lendo

A Natureza do Mito

[Esse artigo surgiu como projeto de uma resenha do livro O Mito do Estado da autoria de Ernst Cassirer. Todavia, como o artigo se estendeu demais, e julguei inconveniente obliterar toda a discussão histórica levantada, visto que isso seria ignorar o sistema argumentativo do autor, resolvi dividir em três posts assim como o livro está dividido em três partes. No primeiro veremos o desenvolvimento do estudo do mito e definição proposta pelo autor. No segundo, a relação do mito e política ao longo da história da filosofia. E por último, o fenômeno contemporâneo do mito político moderno e a conclusão. Por tanto, a leitura dos posts são complementares para o entendimento da obra. Também devo esclarecer que me ative em larga escala aos pensadores e as discussões abordadas por Cassirer, exceto por aqueles que coloquei nas notas.] Continuar lendo

Temor e Tremor: A Fé Sob a Perspectiva Kierkegaardiana

Como em diversos trabalhos, Soren Kierkegaard assinou a obra Temor e Tremor com um alônimo, isto é, um personagem simbólico. Kierkegaard recorria a este recurso para dar voz a diferentes caracteres existenciais, muitas vezes contraditórios entre si, presentes em sua consciência. Por tanto, a finalidade era mostrar diversas facetas de sua identidade. Ironicamente, ou não, o nome escolhido pelo filósofo dinamarquês foi Johannes de Silentio. O último nome invariavelmente nos remete ao conceito de silêncio, que na obra será frequentemente abordado. Alguns autores chegam a defender que a escolha do nome também era uma reafirmação à crítica ao idealismo alemão, afinal, o silêncio é a única resposta possível ao absurdo. Continuar lendo

Temor e Tremor: Abraão Sob a Perspectiva Kierkegaardiana

“Deus disse: toma teu filho, teu único filho a quem tanto amas, Isaac; e vai a terra de Moriá, onde tu o oferecerás em holocausto sobre um dos montes que Eu te indicar.”

Isaac era na verdade o segundo filho de Abraão, pois este havia concebido Ismael da escrava egípcia Agar¹, porém era o filho mais amado, em quem repousava a promessa da posterioridade abraâmica. Abraão não só desafiou a infertilidade de Sara, como a infertilidade da velhice em geral, esperou 100 anos para ver a promessa de Deus, o nascimento de Isaac, se cumprir, para no gozo de sua paternidade ser convidado pelo mesmo Deus a sacrificar sem nenhum motivo aparente seu tão estimado filho. O pedido divino não é somente um absurdo por exigir que um pai assassinasse com as próprias mãos o filho: o filho, no caso, era aquele que na promessa divina haveria de constituir as “diversas nações”. O absurdo reside principalmente nessa contradição. É a partir do cenário apresentado no capítulo 22 do Gênesis, que o patriarca do existencialismo, Soren Kierkegaard, na obra Temor e Tremor, irá analisar a situação do patriarca da fé. Continuar lendo

Política de Aristóteles: Governo e Suas Formas

Aristóteles inicia o terceiro livro do Política limitando a constituição em duas condições. A primeira condição trata de qual tipo de pessoas um estado deve ser composto e a segunda de qual tipo de governo deve ser exercido. Seria estranho a simplicidade, se não entendêssemos a intenção do filósofo. Ora, é claro que uma constituição deve conter muito mais que isso, como fica entendido pelos diversos papéis que lhe são atribuídos, seja o de educadora, reforçadora de costumes e hábitos valorizados, base para os julgamentos, mediadora de conflitos, constituinte do poder e etc. Porém, Aristóteles estava identificando um limite na constituição que, consequentemente, exigia a introdução do estudo do governo. Continuar lendo

Política de Aristóteles: A Constituição

Aristóteles foi sem dúvida o primeiro a abordar a política como uma ciência. Diferente de seu mestre, Platão, em que no A República tratou de criar um arquétipo ideal de governo, Aristóteles foi muito adiante e pretendeu abarcar uma série de conjunturas, originando uma ampla ciência que poderia ser aplicada a qualquer cidade-estado. Seu mérito consiste em ter compreendido os principais aspectos sociais da natureza humana e tê-los aplicados na essência de sua ética. Por tanto, o Política nada mais é do que uma extensão do Ética a Nicomaco. Continuar lendo

Política de Aristóteles: O Desenvolvimento da Pólis

As 158 constituições recolhidas no Liceu permitiram que Aristóteles realizasse uma análise doxográfica dos diversos aspectos políticos das nações antigas e mantivesse sua filosofia particularista ao tratar do assunto. No entanto, vale ressaltar que o tratado Política não é da autoria de Aristóteles. Os exegetas do corpus aristotelicum atribuem a algum peripatético que reproduziu fielmente as lições do mestre. Para entender o posicionamento aristotélico diante da catalogação dos fatos históricos é necessário explicar alguns acontecimentos que permearam sua vida e refletiram em sua obra. Continuar lendo