Durkheim e a Solidariedade Social

Emile Durkheim foi o primeiro professor a ocupar uma cátedra de sociologia na história. No entanto, antes dele muitos haviam contribuído para o estudo da sociedade, particularmente, para o estudo do fenômeno da divisão do trabalho, mas, a maioria deles, economistas ou filósofos, haviam sido insuficientes porque ignoraram ou não compreenderam corretamente a importância da moral para os fenômenos sociais. Da Divisão do Trabalho Social, originalmente sua tese de doutorado, e publicada definitivamente em sua segunda edição em 1902, era o esforço de Durkheim para criar uma ciência que investigasse a moral. E por moral, entende justamente a tensão que vincula o indivíduo à sociedade. Continuar lendo

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O Dever Moral em Criton

A Apologia é o esforço de defesa de Sócrates. O julgamento que era lhe direcionado estava assentado em três acusações: corromper os jovens, desacreditar os deuses antigos e introduzir novos deuses. Subliminarmente, duas principais motivações alimentavam as acusações. A primeira era a hostilidade que gerou para si durante o período que exerceu sua atividade filosófica. A missão socrática era refutar o Oráculo de Delfos, que havia lhe revelado o homem mais sábio. A busca dialética por uma pessoa que satisfizesse a condição de ser mais sábio do que ele desconcertou de políticos, poetas a artesões. A segunda motivação não chega a aparecer explicitamente no texto. Diz respeito ao contexto histórico político de Atenas após a restauração da democracia. Sócrates é tomado como partidário do movimento antidemocrático por causa da ligação com alguns membros, embora essa associação não passasse de um mal-entendido. Porém, em 403 a.C. havia sido concedido uma anistia aos simpatizantes do regime dos Trintas Tiranos, possivelmente, pelo receio de uma retaliação por parte da aristocracia. Uma vez que a anistia impedia qualquer acusação aberta, era necessário escolher outras acusações indiretas contra ele – explicaria a natureza delas serem tão vagas e pífias.

No final da Apologia descobrimos que Sócrates foi considerado culpado (leia mais aqui). No entanto, o sistema jurídico ateniense permitia uma apelação na forma de contra pena. Era a oportunidade de amenizar a proposta exigida pela acusação e livrá-lo da morte. O ápice da exortação é nesse momento. Sócrates é desafiado pelo dilema: promete o silêncio e acata a sentença, ou mantêm sua percepção do que era justo e continua sua missão filosófica, mas padece por elas. Assim como Antígona, na peça de Sófocles, ele escolhe a obrigação divina em detrimento do julgamento civil. Ele não pretende abandonar o espírito filosófico se esta é a condição para se salvar. “Por tanto, atenienses, vos digo que ou me condenais, ou me absolveis. Mas ficai sabendo que não mudarei de conduta, nem que tenha de morrer mil vezes” (30bc). Se voltarmos a atenção para Criton perceberemos a contradição da posição de Sócrates. Se na Apologia aparece como um rebelde, um mártir como descreve Ernest Baker, no Criton aparece insistindo, que mesmo condenado injustamente, deve se submeter a moral das leis. Continuar lendo

A Figura do Leviatã

Desde a primeira publicação de Hobbes, a elogiada tradução da Guerra do Peloponeso de Tucídides, ele já havia adotado o fenômeno conhecido como “frontispício refinado”. O fenômeno que teve origem nos emblemata consiste em impressionantes imagens desenhadas para acompanhar as traduções dos clássicos textos gregos e latinos. Como defende Quentin Skinner, na época a articulação entre imagem e palavra havia tomado o interesse da cultura humanista1. O catálogo da riquíssima biblioteca Hardwick, originalmente pertencente ao Lord Cavendish, que Hobbes dispunha para consulta enquanto tutor do filho de Cavendish, demonstra que ele estava familiarizado com a tendência. De acordo com Hobbes, a causa das sensações é o corpo exterior que pressiona os nossos sentidos. As imagens têm o poder persuasivo de exercer um efeito e prolongar uma impressão. Como não poderia ser diferente, os frontispícios confeccionados para as obras hobbesianas tinham a intenção de reforçarem o conteúdo da obra, sobretudo, sua magnum opus, o Leviatã. Continuar lendo

Popper e a Tolerância

Numa passagem do Leviatã, Hobbes discute o que deve ser feito com aqueles que maliciosamente não observam os pactos, isto é, os injustos e iníquos. Desde que o descumprimento das partes ameaça a paz e a segurança do estado civil, Hobbes aconselha que tais sujeitos não sejam aceitos na sociedade. “Assim, todos os homens que não contribuem para sua destruição [do iníquo] fazem-no apenas por ignorância do que a eles próprios beneficia.”1 Ao herdar a tradição socrática de que racionalmente sempre visamos o bem, e que quando não o visamos, não o fazemos em decorrência de não saber o que é o bem, Hobbes coloca a preservação como o fundamento da razão. Logo, só podemos agir contra nossa preservação quando temos ignorância do que pode ameaçá-la. Continuar lendo

Maquiavel e Isaiah Berlin

Em um ensaio declaradamente autobiográfico chamado A Busca do Ideal, Isaiah Berlin confessa que Maquiavel ofereceu uma grande influencia ao seu pensamento. Os dois autores são frutos de épocas semelhantes. Maquiavel escreveu suas obras no início do século XVI, no ápice do período renascentista. De certo modo, ele contribui com a abertura do caminho para o Renascimento na política. Como defende Ernst Cassirer, Maquiavel foi uma figura-chave para a revolução intelectual do período quando colocou uma separação entre a filosofia política e a participação religiosa na política.1 Desde então, o período ficou marcado por duas principais obras: O Diálogo Sobre os Dois Principais Sistemas do Mundo, de Galileu e O Príncipe. A revolução perpetrada por Maquiavel encontra um desfecho na época de Isaiah Berlin. Se Maquiavel assiste a crise do Medievalismo, Berlin assiste a crise do Iluminismo. O golpe desferido pelo florentino – embora seja interrompido – é reaberto na crise da razão no século XX, da qual Berlin é um herdeiro. É curioso como ambos estão nos extremos da linha cronológica da história. Como não poderia ser diferente, Berlin encontra em Maquiavel uma referência. Para ele, Maquiavel foi o primeiro a lhe chamar a atenção para a incompatibilidade dos valores. Continuar lendo

A Razão, A Revelação e o Capricho Humano

[Ao propôr a sua definição de religião, Emile Durkheim estava estabelecendo uma distinção entre religião e mágica.1 O principal elemento que a diferenciava de outras definições apresentadas anteriormente era o elemento da igreja. Por igreja, ele entendia uma comunidade de pessoas que compartilhavam certas crenças na oposição do sagrado ao profano. A fé comum uniria os membros por um vínculo moral. Dentro da consciência coletiva cultivada pela igreja não existe espaço para a arbitrariedade – mesmo para aqueles que seguem cultos individuais. Nesse sentido, o mágico vai no sentido oposto, pois ele não segue normas impostas coletivamente. “Não existe igreja mágica.” A relação entre o mágico e os indivíduos que o consultam não são baseados em nenhuma solidariedade. O mágico depende apenas da sua própria técnica. Seja ela herdada, descoberta ou criada, o mágico não está sujeito às regras morais, senão à eficácia de seus métodos.] Continuar lendo

Antígona e a Comunidade Política

Os personagens das tragédias gregas continuam ecoando em nossas consciências. Em parte, pela complexidade de suas características, relações que traçam e destinos que enfrentam, são um retrato da psicologia humana. Ainda assim, vão além de simples reflexos humanos; apresentam o cenário de disputas políticas. Como já havíamos tratado anteriormente de uma interpretação política na obra de Homero (veja aqui), agora trataremos de algumas reflexões dentro das tragédias gregas, mais especificamente na obra Antígona. Para tanto, utilizaremos o mesmo conceito de política: política é o “fluxo dos processos sociais”. Continuar lendo